O Atlas of Surveillance, base pública mantida pela Electronic Frontier Foundation (EFF) com a University of Nevada, Reno para mapear tecnologias de vigilância policial nos Estados Unidos, acaba de passar de 15 mil pontos de dados pesquisáveis.
O projeto, tocado pela EFF em parceria com a universidade, virou uma das principais referências públicas para saber se há câmeras de leitura de placas, drones policiais ou sistemas de reconhecimento facial em operação na sua cidade. A ideia é direta: dar visibilidade a onde e de que forma as forças de segurança estão adotando esse tipo de ferramenta, juntando jornalismo de dados, pedidos amparados por leis de acesso à informação e contribuições enviadas pela própria comunidade.
Na prática, dá para pesquisar cidades, estados, agências e tipos de tecnologia para entender quais sistemas estão em uso. Isso pesa ainda mais num momento em que o monitoramento digital se expande com rapidez.
No Atlas of Surveillance, o mapeamento não fica preso a um único tipo de equipamento. A base reúne desde drones e câmeras corporais até sistemas de reconhecimento facial e leitores automáticos de placas, os chamados ALPRs. Dentro desse grupo, os equipamentos da Flock Safety têm chamado atenção pela velocidade com que se espalharam: as câmeras da empresa registram imagens de veículos e de suas placas, o que permite montar um histórico pesquisável de avistamentos.
De acordo com a Flock Safety, o sistema já é usado por forças de segurança em mais de 4 mil cidades. A empresa diz que os dados costumam ser mantidos por 30 dias, que não usa reconhecimento facial e que os clientes são os donos dessas informações, decidindo como e com quem elas podem ser compartilhadas. A Flock Safety também afirma que sua rede ajuda a solucionar cerca de 2.200 crimes por dia.
Só que o avanço dessas câmeras, mesmo embalado pelo argumento da segurança pública, também vem provocando reação. Um dos casos mais recentes envolve o Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD), que, segundo o próprio órgão, suspendeu o uso das câmeras da Flock depois de uma auditoria do inspetor-geral levantar preocupações sobre privacidade, compartilhamento de dados e a necessidade de regras de supervisão mais duras.
Isso mostra uma mudança importante. Mais cidades e órgãos públicos passaram a discutir não só a eficiência dessas ferramentas, mas também até onde seu uso pode ir. Organizações como a American Civil Liberties Union (ACLU) e a própria Electronic Frontier Foundation (EFF) sustentam que sistemas de leitura de placas podem virar, na prática, um mecanismo de vigilância em massa, porque registram os deslocamentos de grandes volumes de pessoas sem depender de suspeita individual. Os críticos também apontam riscos de abuso, como uso indevido por agentes, perseguição, monitoramento de manifestantes e buscas potencialmente discriminatórias.
Mesmo quando a tecnologia é vendida como instrumento de investigação, o volume de dados coletados e o compartilhamento entre agências abrem perguntas sobre proporcionalidade e controle. É nesse cenário que o Atlas of Surveillance passa a ter ainda mais peso: ao tornar pública uma infraestrutura que quase sempre opera fora do campo de visão da população, a ferramenta ajuda você a ver onde a vigilância já está instalada e amplia uma discussão que vai muito além de uma câmera presa a um poste.