O episódio piloto duplo de Lost, dirigido por J.J. Abrams, voltou com força ao centro das conversas em 2024, puxado pelo aniversário de 20 anos da série e pela entrada de Lost no catálogo da Netflix.
Com essa redescoberta, reapareceu também entre fãs e críticos uma ideia que nunca sumiu de vez: o melhor trabalho “de longa-metragem” de J.J. Abrams talvez não esteja no cinema, mesmo depois de ele passar por franquias gigantes como Star Trek e Star Wars: O Despertar da Força, que passou da marca de 2 bilhões de dólares nas bilheterias mundiais. No papel, claro, não é um filme. Mas o episódio duplo de estreia de Lost tem fôlego de longa, ambição visual, ritmo de blockbuster e uma apresentação de personagens que, duas décadas depois, ainda serve de referência.
Exibido pela primeira vez em 22 de setembro de 2004, pela ABC, o piloto de Lost já nasceu tratado como evento. A primeira parte reuniu cerca de 18,6 milhões de espectadores nos Estados Unidos, segundo a própria ABC. Para a emissora, era um número enorme. E, logo de cara, um aviso de que havia alguma coisa especial ali.
Isso ficava claro nos primeiros minutos. Jack Shephard acorda na floresta e, pouco depois, vem o caos do acidente aéreo na praia, numa abertura imersiva, violenta e instantaneamente icônica. A direção de J.J. Abrams deu ao episódio uma urgência e uma escala que a TV aberta da época quase nunca alcançava. Lost soava mais como cinema do que como televisão.
Houve também outro acerto decisivo: a forma como o piloto apresentou aquele elenco enorme. Em pouquíssimo tempo, Lost cravou figuras como Jack Shephard, Kate Austen, James “Sawyer” Ford, John Locke, Hugo “Hurley” Reyes e Sayid Jarrah sem deixar o mistério central de lado. Esse encontro entre espetáculo e construção de personagem ajuda a explicar por que o episódio ainda aparece, 20 anos depois, em listas dos pilotos mais influentes e mais elogiados da história da televisão.
Parte dessa sensação cinematográfica vinha do dinheiro em cena. O piloto de duas partes teria custado entre 10 milhões e 14 milhões de dólares, um valor fora da curva para a TV aberta naquele momento. O que foi para a tela tinha cara de produção muito acima do padrão da época, em escala e em ambição. Foi isso, em boa medida, que consolidou a reputação do episódio como o “filme” de J.J. Abrams feito para a televisão.
E tem um ponto maior aí. Foi esse episódio que lançou uma franquia de seis temporadas e 121 episódios, virou um fenômeno cultural, dominou conversas online e ajudou a mostrar que o público toparia acompanhar histórias complexas, serializadas e cheias de perguntas sem resposta imediata. Em muitos sentidos, Lost abriu caminho para a popularização dessa TV movida a mistério, teorias e discussão semanal entre fãs.
Olhar para a carreira posterior de J.J. Abrams só deixa essa leitura mais curiosa. Ele dirigiu filmes enormes, de sucesso comercial inegável, mas poucos trabalhos capturam tão bem a sensação de descoberta, tensão e encantamento quanto o piloto de Lost.
Não existe reboot confirmado. Ainda assim, nomes ligados ao universo da série, como Drew Goddard e Josh Holloway, já disseram que um retorno poderia acontecer se surgissem as condições criativas certas. Mesmo sem revival, uma coisa parece bem clara: o legado de Lost começa naquele piloto e, para muita gente, é ali que está a obra mais marcante que J.J. Abrams já dirigiu. E você, arrisca algum palpite?