O mercado de smartphones acabou de virar uma esquina. Os recursos de IA generativa estão deixando de ser um extra chamativo para virar item de tabela. Pelas projeções da IDC, os aparelhos capazes de rodar esse tipo de função devem representar 45% das remessas globais em 2026, acima dos 36% previstos para 2025. No mesmo intervalo, esse segmento deve saltar de 124,3 bilhões de dólares para 140,8 bilhões de dólares.
Só que essa mudança não pesa do mesmo jeito para todo mundo. Num mercado que já vem dando sinais de desgaste, as gigantes do segmento premium largam na frente, enquanto marcas menores, mais peculiares ou mais experimentais podem simplesmente perder o fôlego para bancar essa nova conta.
Colocar um celular relevante na rua agora pede bem mais do que um design bonito ou uma ficha técnica redondinha.
Para oferecer resumos automáticos, tradução em tempo real, edição mais avançada de foto e áudio e assistentes que entendem contexto, as fabricantes precisam de chips mais novos, mais memória, infraestrutura em nuvem, acordos com desenvolvedores de modelos, suporte de software por mais anos e campanhas de marketing de grande alcance.
E esse conjunto todo aumenta a barreira de entrada justamente para quem sempre sobreviveu apostando em caminhos alternativos. Marcas de nicho ainda podem chamar atenção de entusiastas, claro, mas o custo de acompanhar essa nova corrida tecnológica aperta a margem de manobra delas.
Apple, Samsung e Google chegam muito mais bem posicionadas para ditar o ritmo da próxima geração de smartphones. A Apple ajuda a mostrar o tamanho dessa vantagem: segundo a IDC, a empresa enviou algo perto de um em cada cinco dos cerca de 1,3 bilhão de celulares vendidos no mundo no último ano.
No topo do mercado, o peso da Apple fica maior ainda. Também de acordo com a IDC, a empresa controla mais de dois terços dos aparelhos acima de 600 dólares e mais de três quartos dos modelos acima de 1.000 dólares.
É nesse pedaço do mercado que os novos recursos costumam aparecer primeiro, sustentados por chips mais fortes e unidades dedicadas de processamento. Isso cria um ciclo favorável: quem domina a faixa premium testa funções antes, cobra mais caro e consegue reinvestir com muito mais facilidade.
Acontece que essa transição chega num momento bem desconfortável para o setor.
A própria IDC projeta queda nas remessas totais de smartphones, embora os modelos premium ainda devam avançar. A consultoria também espera uma retração relevante em 2026, com os fabricantes Android de entrada entre os mais expostos.
Tem mais. Segundo a IDC, a procura por data centers e infraestrutura computacional está pressionando os preços da memória, peça central para esses novos recursos embarcados. A tendência, nesse cenário, é de alta no preço médio dos celulares.
Marcas premium têm espaço maior para absorver esse aumento ou repassá-lo ao consumidor. Já as de baixo custo trabalham com margens bem mais apertadas.
É aí que começam as dúvidas sobre o futuro de nomes como Meizu, Fairphone, Unihertz, Shiftphone, Murena e Teracube, cada um com uma proposta que foge do padrão.
A diversidade não desapareceu, mas o jogo ficou mais caro e mais concentrado. Não por acaso, a Meizu afirmou, em 2024, que deixaria de tocar novos projetos de smartphones tradicionais para concentrar esforços em aparelhos orientados a esses novos recursos.
Ainda tem uma pergunta no ar: o consumidor realmente coloca tudo isso no topo da lista?
Segundo a IDC, pesquisas de 2025 mostraram que desempenho e bateria continuam pesando mais na decisão de compra do que funções generativas. Parte dos analistas vê aí um risco claro: o discurso promocional pode estar correndo na frente do interesse real do público, enquanto a inovação em hardware acaba recebendo menos atenção nesse processo.
E você, arrisca algum palpite?