O compilador original da INTERCAL, linguagem de programação esotérica criada em 1972, foi redescoberto e publicado agora, em junho de 2025. Quando a descoberta veio a público, também em junho de 2025, ela trouxe de volta a curiosidade em torno de uma das criações mais estranhas, e também mais influentes, da história da computação.
Criada em 1972, a linguagem ficou conhecida por obrigar o programador a usar a palavra “PLEASE” no código e por punir tanto a falta de educação quanto o excesso de gentileza.
INTERCAL é a sigla de “Compiler Language With No Pronounceable Acronym”, algo como “linguagem compilada sem acrônimo pronunciável”. Don Woods e James M. Lyon, então estudantes de Princeton, a criaram não como ferramenta prática, mas como uma piada cuidadosamente montada sobre o design das linguagens de programação.
A proposta era satirizar a complexidade arbitrária das linguagens contemporâneas da época, levando tudo ao limite de um jeito deliberadamente contraintuitivo. Por isso, a INTERCAL vinha com instruções como “IGNORE” e “FORGET”, além do infame “COME FROM”, uma paródia do tradicional “GOTO”.
Esses comandos não existiam para facilitar o fluxo do programa. Faziam justamente o contrário: tornavam a lógica propositalmente difícil de acompanhar. Até a entrada e a saída foram desenhadas para irritar. Na versão original da INTERCAL, os números de entrada precisavam ser escritos por extenso em inglês, enquanto a saída aparecia numa forma distorcida de numerais romanos.
E, mesmo com toda essa absurdidade, a INTERCAL é Turing-completa. Em termos teóricos, isso quer dizer que a linguagem pode realizar qualquer computação que uma máquina de Turing universal seja capaz de executar, desde que alguém tenha paciência suficiente para programá-la.
Esse detalhe ajudou a transformar a INTERCAL em algo maior do que uma simples curiosidade. A linguagem é amplamente vista como uma das primeiras linguagens esotéricas, ou esolangs, e abriu caminho para uma comunidade inteira de projetos criados como sátira, arte ou comentário sobre a própria cultura da programação.
Quase meio século depois, a redescoberta do compilador original só reforça esse legado: nem toda inovação em tecnologia nasce para ser útil. Algumas aparecem para provocar, confundir e, de quebra, pedir “por favor”.