O Google Cloud Marketplace ganhou uma nova leva de modelos: os modelos quantitativos de grande porte da SandboxAQ. Pelo que o Google Cloud anunciou, a ideia é avançar justamente onde texto e conversa , sozinhos, já não resolvem muito, como descoberta de medicamentos, ciência dos materiais e fabricação de semicondutores.
Na prática, isso abre espaço para que pesquisadores e empresas misturem duas camadas diferentes de IA. De um lado, o Gemini, que funciona bem como interface e no raciocínio em linguagem natural. Do outro, os modelos da SandboxAQ, treinados para cálculo, previsão e análise de dados científicos. Para o Google, esse passo ajuda a aproximar sua nuvem de workloads de pesquisa e desenvolvimento que costumam ser mais caros, técnicos e fora do alcance de ferramentas genéricas.
Os primeiros produtos previstos para o marketplace, de acordo com o Google Cloud, são o AQCat, voltado à descoberta de materiais e catalisadores, e depois o AQPotency, focado em descoberta de fármacos. O movimento também diz algo sobre o papel que o Google quer ocupar aqui. Em vez de tentar erguer sozinho uma ferramenta para cada setor, a empresa passa a usar o marketplace como vitrine e canal de distribuição para modelos de terceiros que já chegam com aplicação industrial bastante clara.
Isso conversa com um momento em que as empresas querem tirar resultado concreto dessas ferramentas, e nem sempre encontram isso em chatbots generalistas. Para laboratórios, farmacêuticas e fabricantes avançados, conta mais acertar no número e respeitar as leis da física e da química do que escrever com fluência.
Modelos de linguagem de grande porte costumam se sair bem ao resumir documentos, responder perguntas e produzir texto. O problema aparece quando a tarefa cobra consistência matemática rígida. Nesse tipo de trabalho, os modelos da SandboxAQ, segundo o Google Cloud, foram treinados com equações científicas, dados numéricos e medições de laboratório, o que os deixa mais à vontade em química, biologia e física.
Por isso o Google apresenta essa oferta como complemento ao Gemini, não como troca. O Gemini pode ajudar a organizar hipóteses, percorrer literatura científica e servir de interface. Já os modelos quantitativos entram na parte em que a pesquisa pede previsão de propriedades moleculares, comportamento de materiais ou avaliação de potência de compostos.
Junto desse anúncio, o Google também reforçou o Gemini for Science, um pacote voltado a rotinas de pesquisa que, nas informações do Google Cloud, inclui ou aproveita projetos como o co-cientista do Google, o AlphaEvolve, um assistente de pesquisa empírica, e o NotebookLM. A mensagem da empresa é acelerar tarefas repetitivas e dar mais ordem ao trabalho científico, sem tirar o pesquisador do centro de tudo.
No fundo, a aposta parece estar menos na automação total e mais em encurtar etapas como revisão de literatura, desenho de experimentos e triagem inicial de candidatos. E há um mercado grande em jogo. Segundo o Google Cloud, o mercado global de descoberta de fármacos foi estimado em cerca de 112 bilhões em 2025 e pode chegar a 187 bilhões até 2034. Ao mesmo tempo, Microsoft Azure e Amazon Web Services (AWS) também vêm reforçando suas plataformas para pesquisa científica, o que aumenta a pressão competitiva.
Para o Google Cloud, vender modelos especializados pelo marketplace pode ser um atalho para atender setores regulados e intensivos em pesquisa sem precisar desenvolver cada solução dentro de casa. Para a SandboxAQ, a parceria amplia distribuição e também empresta credibilidade. A empresa foi desmembrada da X, divisão de projetos experimentais da Alphabet, em 2022 e, ainda segundo o Google Cloud, tem entre seus apoiadores nomes como Eric Schmidt e Marc Benioff.