A Microsoft passou a enfrentar uma ação coletiva de investidores nos Estados Unidos em 12 de junho. O processo foi apresentado nessa mesma data no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Oeste de Washington pelo City of St. Clair Shores Police and Fire Retirement System, que atua em nome de acionistas que compraram papéis da empresa entre 1º de maio de 2025 e 28 de janeiro de 2026.
A ação também menciona o CEO da Microsoft, Satya Nadella, a CFO Amy Hood e outros executivos. A acusação é de que declarações falsas ou enganosas teriam ajudado a inflar o preço das ações da companhia ao longo desse período.
O ponto central da disputa está na reação do mercado ao balanço trimestral divulgado pela Microsoft na noite de 28 de janeiro. No pregão do dia seguinte, 29 de janeiro, os papéis caíram cerca de 10%, na pior queda diária da empresa em quase seis anos, eliminando por volta de 357 bilhões em valor de mercado, de acordo com o processo.
Para os autores da ação, a Microsoft não explicou de forma suficiente dois problemas que estavam ligados entre si: a perda de ritmo no crescimento do Azure, braço de computação em nuvem da companhia, e a necessidade de fazer investimentos bem mais pesados em data centers e chips para sustentar sua estratégia de longo prazo. A queixa sustenta que esses pontos eram relevantes para a tese de investimento e, por isso, deveriam ter sido apresentados com mais clareza antes do choque no preço das ações.
Os números citados no processo ajudam a entender por que parte do mercado reagiu mal. A Microsoft informou 37,5 bilhões em investimentos de capital no trimestre, alta de quase 66% na comparação anual e acima da expectativa dos analistas, que estava em 34,3 bilhões.
Ao mesmo tempo, a receita do Azure desacelerou. O crescimento caiu para 39%, depois de 40% no trimestre anterior, enquanto a projeção da Microsoft para os primeiros meses de 2026 apontava nova perda de fôlego, para algo entre 37% e 38%. A própria empresa disse que esse ritmo menor no Azure refletiu restrições de capacidade, provocadas pelo redirecionamento de CPUs e GPUs para pesquisa e desenvolvimento e para produtos como o Copilot. Na visão dos autores da ação, esse deslocamento de recursos era um fato material e deveria ter chegado antes ao conhecimento dos investidores.
O caso aparece no meio de uma fase de gastos muito pesados da Microsoft com infraestrutura. Entre os movimentos mais recentes estão um compromisso reportado de 25 bilhões de dólares australianos na Austrália, 250 bilhões em novos compromissos do Azure ligados à parceria com a empresa por trás do ChatGPT e também esforços para desenvolver modelos próprios, diminuindo a dependência de um único parceiro.
Tudo isso reforça a leitura de que Wall Street passou a exigir não só crescimento, mas também mais previsibilidade sobre margens, capacidade e retorno desses investimentos. A Microsoft já disse que as acusações “não têm mérito” e afirmou que vai se defender vigorosamente.
Especialistas em direito do mercado de capitais lembram que ações desse tipo costumam aparecer depois de quedas bruscas nas ações. Ainda assim, os autores terão de provar que houve omissões ou declarações enganosas sobre fatos relevantes e que isso provocou diretamente as perdas dos acionistas. Em outras palavras, o tombo das ações, sozinho, não garante vitória no tribunal, mas o processo aumenta a pressão sobre a Microsoft num momento em que seus gastos estão sendo observados com atenção cada vez maior.
Fonte: processo judicial do Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Oeste de Washington | Imagem: Microsoft