A série de Harry Potter da HBO nem chegou ao ar e já virou assunto por causa de um comentário bem direto do diretor de fotografia Adriano Goldman, que chamou a rotina das filmagens de “brutal” e “realmente complicada”. O problema, segundo ele, começa na própria estrutura do elenco, formado em grande parte por crianças. Para fazer o dia render, a equipe precisa deixar tudo encaminhado antes, e às vezes até filmar trechos das cenas sem os atores mirins, para que, quando eles entram no set, seja possível gravar o máximo de tomadas em pouquíssimo tempo.
Isso tem muito a ver com as regras britânicas para trabalho infantil. No Reino Unido, crianças e adolescentes não podem cumprir jornadas longas como os adultos. Há limites rígidos de horário, pausas obrigatórias, tempo separado para estudo e períodos de descanso que a produção precisa respeitar.
Aí o cronograma vira um quebra-cabeça de verdade. Iluminação, câmera, marcações e parte da movimentação da cena precisam estar resolvidas antes da chegada do elenco jovem, porque cada minuto conta. Em alguns casos, pelo relato de Adriano Goldman, a produção teria algo em torno de 90 minutos para rodar várias configurações e depois liberar as crianças para a escola ou para descansar. Isso aperta tudo: aumenta a pressão sobre a equipe inteira e empurra o set para um ritmo acelerado, quase de corrida contra o relógio, ainda mais numa série que promete muito detalhe e uma adaptação fiel aos livros.
Goldman também deu a entender que esse jeito mais quebrado de filmar pode aparecer no resultado final. Não por falta de ambição, mas porque, com uma janela tão curta, sobra menos espaço para repetir tomadas, testar outros enquadramentos ou lapidar melhor a interpretação ali na hora.
Numa produção desse tamanho, essa limitação pesa ainda mais. Harry Potter depende muito de performances bem específicas do trio principal e de interações que precisam soar naturais, mesmo quando são filmadas em blocos separados e sob uma restrição pesada de tempo. Ainda assim, Goldman indicou que a série da HBO quer fugir de uma simples repetição visual dos filmes. A ideia seria buscar uma identidade própria, com imagem mais vibrante e um uso mais forte de efeitos práticos, sem depender tanto de CGI.
E o cronograma não seria o único foco de tensão nos bastidores. Relatos recentes mencionaram episódios de bullying entre crianças no set, inclusive uma briga física entre dois figurantes de 12 anos. A resposta da produção, ainda de acordo com esses relatos, teria sido endurecer as regras internas para esse tipo de comportamento, com o aviso de que quem ultrapassar o limite pode ser retirado do projeto.
Fora do estúdio, o clima também estaria longe de ser tranquilo. Relatos recentes apontaram que Paapa Essiedu, escolhido para viver Severus Snape, teria sido alvo de ataques racistas e até de ameaças de morte. Diante disso, a produção teria reforçado a segurança com uma equipe especializada. Mesmo com esse acúmulo de problemas, a HBO segue tratando a adaptação como um projeto de longo prazo: a proposta continua sendo adaptar os sete livros de J.K. Rowling ao longo de cerca de uma década, com uma temporada dedicada a cada volume da saga. Hoje, a previsão mais comentada aponta para estreia no Natal de 2026. E isso dá uma boa medida do tamanho da empreitada: equilibrar escala cinematográfica, proteção ao elenco infantil e um nível de expectativa que poucos projetos de TV encararam nos últimos anos.