A Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) anunciou mais um aporte pesado nos Estados Unidos: US$ 100 bilhões. Com isso, segundo a própria empresa, o volume total de investimentos no país sobe para algo perto de US$ 265 bilhões. Na prática, a companhia acelera sua presença no Arizona e se encaixa ainda mais na estratégia americana de repatriar a produção de semicondutores.
No chão do projeto, no deserto do Arizona, isso passa a significar 12 instalações, de acordo com a TSMC. Entram nessa conta fábricas, centros de suporte e toda a infraestrutura voltada à manufatura avançada. É um dos maiores movimentos industriais já realizados por uma empresa estrangeira em território americano.
O anúncio conversa diretamente com a política industrial dos EUA de cortar a dependência de cadeias de suprimento concentradas na Ásia, com Taiwan no centro dessa equação.
A expansão da TSMC também vem ancorada no CHIPS and Science Act, o programa americano criado para incentivar a produção local. Dentro desse pacote, segundo a empresa, a companhia pode ter acesso a até US$ 6,6 bilhões em financiamento direto, além de até US$ 5 bilhões em empréstimos.
Para Washington, o raciocínio é simples: ter acesso doméstico a chips avançados deixou de ser apenas uma pauta industrial. Virou tema econômico, estratégico e de segurança de fornecimento.
Do lado da TSMC, a conta também fecha comercialmente. A empresa informou um salto de 77% no lucro do segundo trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, puxado pela demanda por semicondutores de alto desempenho. Esse resultado dá mais fôlego de caixa para sustentar uma expansão internacional desse tamanho.
Segundo a TSMC, a primeira fábrica da empresa no Arizona já entrou em produção em alto volume no fim de 2024, fabricando chips de 4 nanômetros. As próximas fases do plano incluem unidades capazes de produzir semicondutores de 3 nanômetros e, depois, de 2 nanômetros, processos que hoje estão entre os mais avançados de toda a indústria.
E isso mexe com muito mais coisa do que parece à primeira vista. Chips mais modernos são peça central em PCs, smartphones, servidores, carros e consoles, além de toda a infraestrutura digital que mantém serviços online e games de pé. Quanto mais perto esses componentes forem produzidos dos grandes mercados consumidores, menor tende a ser a exposição a gargalos logísticos e a choques geopolíticos.
O anúncio também chega num momento em que a produção chinesa avança em ritmo forte. Pequim vem ampliando sua capacidade de fabricação dentro de uma política industrial de longo prazo que mira 80% de autossuficiência em semicondutores até 2030. Em 2024, essa taxa era estimada em cerca de 33%.
A China ainda avançou mais, principalmente, em chips de nós maduros. Mesmo assim, a disputa já está redesenhando o mapa global do setor. De um lado, os EUA tentam diminuir a dependência de fornecedores externos. Do outro, a China corre para consolidar capacidade local em escala.
No Arizona, o efeito econômico também pesa. Segundo a TSMC, o projeto é tratado como o maior investimento estrangeiro direto em um empreendimento greenfield da história dos Estados Unidos e deve abrir milhares de vagas, tanto na construção civil quanto na manufatura de alta tecnologia.
Ao mesmo tempo, a expansão americana da TSMC carrega implicações geopolíticas delicadas. Analistas enxergam o movimento como uma forma de reduzir riscos ligados a tarifas e a eventuais tensões no Estreito de Taiwan. Em Taiwan, porém, parte do debate segue outra linha: há quem tema que uma produção mais distribuída pelo mundo acabe enfraquecendo o chamado “escudo de silício” da ilha.