A Anthropic, empresa de inteligência artificial por trás do Claude, anunciou um programa próprio de descoberta de medicamentos voltado a doenças negligenciadas, sobretudo aquelas que as grandes farmacêuticas costumam deixar de lado por renderem pouco. O ponto de partida está na fase pré-clínica, quando pesquisadores tentam encontrar e validar compostos promissores antes de qualquer teste em humanos. É justamente uma das etapas mais demoradas e caras de todo o processo, e é aí que a empresa diz acreditar que suas ferramentas podem cortar caminho.
Com esse movimento, a Anthropic deixa de atuar só como fornecedora de software para laboratórios e farmacêuticas e passa a entrar diretamente na criação de candidatos a novos tratamentos. A companhia diz que seu modelo de public benefit corporation lhe dá espaço para colocar impacto social e necessidades dos pacientes na frente, mesmo quando o retorno comercial é pequeno.
Isso ajuda a entender por que a empresa está mirando doenças raras, tropicais e outras condições historicamente subatendidas. São áreas que há anos sofrem com falta de investimento, em geral porque o mercado potencial é menor ou porque o retorno parece incerto demais. A aposta da Anthropic é bem direta: se ferramentas computacionais conseguirem acelerar e baratear a etapa inicial da pesquisa, projetos que hoje nem saem do papel podem virar projetos viáveis.
Numa estimativa citada pela própria Anthropic, o CEO da Novartis, Vas Narasimhan, afirmou que esse tipo de tecnologia pode encurtar o desenvolvimento de um medicamento de cerca de 12 anos para 7 ou 8 anos. Segundo a mesma estimativa, a taxa de sucesso também subiria, de 8% para 16%.
Junto desse novo programa, a empresa também lançou o Claude Science, produto da Anthropic voltado à pesquisa científica. De acordo com a companhia, a ferramenta se conecta a mais de 60 bases de dados e foi pensada para tarefas de genômica, proteômica e análise de célula única.
Para sustentar a promessa de ganho de produtividade, a Anthropic recorre a alguns exemplos. Em um deles, segundo a empresa, um pesquisador da University of California, San Francisco (UCSF) teria detectado em minutos uma contaminação viral que uma equipe deixou passar durante um ano. Em outro caso, também citado pela Anthropic, uma análise de 100 doenças genéticas raras levou menos de uma hora e indicou 32 candidatos para triagem adicional. A leitura da empresa é que pesquisadores podem ganhar tempo nas fases de formulação de hipóteses, triagem e priorização de alvos. E isso acontece num setor que já vem andando nessa direção: com base em dados citados pela própria Anthropic, 81% das organizações farmacêuticas usaram esse tipo de tecnologia em pelo menos um programa de desenvolvimento em 2024.
A entrada da Anthropic ocorre num campo cada vez mais disputado. Estão ali nomes como a Isomorphic Labs, da Google DeepMind, além das iniciativas de saúde da OpenAI, todos tentando ganhar espaço na biotecnologia. Só que encontrar candidatos melhores mais cedo não resolve, por si só, o resto do problema.
Os ensaios clínicos, a aprovação regulatória, a transparência dos sistemas, os vieses nos dados e a definição de responsabilidades continuam sendo barreiras pesadas. Até aqui, a Anthropic falou pouco sobre como pretende lidar com as etapas que vêm depois da descoberta inicial. A promessa chama atenção, mas a prova de verdade não vai aparecer só na tela: ela vai ter de passar pelo laboratório, pelos testes com pacientes e, mais adiante, pelo crivo dos órgãos reguladores.