A Sony Interactive Entertainment confirmou em 1º de julho de 2026 que vai deixar de produzir discos físicos para todos os novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. O anúncio da divisão de games da Sony apenas carimba uma virada que o mercado já vinha mostrando havia anos: no ecossistema PlayStation, a compra digital já tomou a frente com folga. Comercialmente, a escolha é fácil de entender. Pelos números da própria Sony Interactive Entertainment, os downloads digitais representaram 85% das vendas de jogos completos no PS5 e no PS4 no quarto trimestre do ano fiscal de 2025. Considerando o ano fiscal inteiro, a fatia digital ficou em 78%.
Faz tempo, portanto, que o disco deixou de ser o formato principal. Ainda assim, a novidade tem peso de fim de época para colecionadores, para o mercado de usados e também para quem vê a cópia física como uma forma de garantir acesso ao conteúdo daqui a muitos anos. Hideo Kojima disse achar triste o desaparecimento da mídia física, mas acrescentou que um futuro dominado pelo cloud gaming preocupa ainda mais. Nesse modelo, o jogador nem chega a baixar os dados do jogo localmente e passa a depender por completo de servidores controlados por empresas.
É aí que a discussão pega no ponto mais delicado: propriedade. Quando você compra um jogo em uma loja digital, o que normalmente leva é uma licença de uso, não a posse plena da obra. Na prática, isso quer dizer que o acesso pode mudar se a empresa alterar políticas, tirar conteúdo do catálogo ou encerrar serviços.
No cloud gaming, essa dependência cresce ainda mais. Sem download local, sem disco e sem arquivo instalado no console, o consumidor fica com um acesso temporário mediado pela infraestrutura de terceiros. Para preservacionistas e para uma parte da comunidade, esse é o cenário mais frágil de todos.
E não se trata só de medo abstrato. Há pouco tempo, a Sony removeu mais de 550 filmes que usuários já haviam comprado de suas bibliotecas digitais, sem reembolso. O caso repercutiu bastante e reforçou uma sensação que muita gente já tinha: “comprar” no digital nem sempre significa continuar com acesso permanente.
Isso ajuda a entender também por que o hardware com leitor ainda encontra tanta procura. Segundo a Circana, 82% dos PS5 vendidos nos Estados Unidos até outubro de 2024 vinham com unidade de disco. Já uma enquete da Digital Foundry, com mais de 45 mil participantes, mostrou que 86% disseram que a mídia física continua importante.
A reação da comunidade veio rápido. A petição “Don’t Kill the Disc: Tell Sony to Keep Physical PlayStation Games” passou de 16.000 assinaturas em menos de 24 horas. O assunto também encosta em movimentos maiores, como o “Stop Killing Games”, que pedem regras mais claras para preservação e proteção ao consumidor. Ao mesmo tempo, analistas já especulam que o PlayStation 6, que muita gente espera para 2028, pode chegar sem leitor de disco como padrão.
Se isso de fato acontecer, o efeito não fica restrito aos jogadores. Redes varejistas e, sobretudo, lojas menores podem perder vendas de mídia física, além da receita gerada por trocas e usados. Talvez a despedida dos discos seja inevitável. A dúvida é outra: a indústria vai conseguir convencer você de que um futuro 100% digital ainda pode oferecer algo parecido com posse, continuidade e memória? E você, arrisca algum palpite?