O PRIMA, implante de retina da Science Corp., acaba de obter a marca CE concedida pela certificadora DEKRA. Na prática, isso abre caminho para a venda do dispositivo em 30 países europeus.
A proposta é recuperar parte da visão de pessoas com degeneração macular avançada. De acordo com a Science Corp., os primeiros implantes comerciais devem acontecer em agosto de 2026, na Alemanha. A empresa também diz que dezenas de pacientes ainda devem receber o tratamento neste ano, com a meta de chegar a algo perto de 200 em 2027.
O PRIMA foi pensado para pacientes com atrofia geográfica, a forma mais grave da degeneração macular relacionada à idade do tipo seco. A Science Corp. afirma que a doença atinge mais de 5 milhões de pessoas no mundo e destrói a visão central, que é a parte usada para ler, reconhecer rostos e perceber detalhes. Os tratamentos aprovados hoje, em geral, só conseguem retardar o avanço do problema, sem trazer de volta a visão que já foi perdida.
Para tentar ir além disso, o sistema junta um minúsculo chip fotovoltaico sem fio, implantado sob a retina, a um par de óculos especiais com câmera e projetor. Esses óculos enviam luz no infravermelho próximo ao chip, que transforma essa energia em sinais elétricos para estimular as células da retina que ainda restam. O conjunto também inclui uma função de zoom para ampliar letras e facilitar a leitura, segundo a empresa.
Os dados clínicos pesaram a favor da aprovação. Em um estudo com 38 pacientes, conduzido em 17 centros de cinco países e publicado no The New England Journal of Medicine, os participantes ganharam, em média, 25,5 letras em testes visuais, o equivalente a mais de cinco linhas numa tabela ocular padrão. Cerca de 84% voltaram a conseguir ler letras, números e palavras.
Isso, claro, está longe de ser uma cura. Especialistas descrevem o PRIMA como o primeiro tratamento capaz de devolver alguma função visual em casos avançados de atrofia geográfica, mas a visão recuperada continua bastante limitada, hoje relatada na faixa de 20/400. Também houve pacientes que não perceberam grandes mudanças na qualidade de vida, e a cirurgia para implantar o dispositivo é complexa e traz riscos.
A Science Corp. já está em contato com a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, para levar o PRIMA ao país. Pelos planos da empresa, a entrada naquele mercado deve acontecer em 2027. O dispositivo já recebeu da FDA as designações Breakthrough Device e Humanitarian Use Device, criadas para acelerar e apoiar o desenvolvimento de tecnologias voltadas a grupos de pacientes com alta necessidade médica.
O lançamento chama atenção por outro motivo: ele está entre os primeiros produtos amplamente comercializados vindos de uma empresa americana de implantes neurais. A Science Corp. foi fundada por Max Hodak, ex-presidente da Neuralink, está avaliada em cerca de 1,5 bilhão e já levantou aproximadamente 489 milhões, segundo a própria companhia. A tecnologia PRIMA foi adquirida da Pixium Vision em 2024.
Agora, a dúvida é em que velocidade esse tratamento vai conseguir ganhar escala. A Science Corp. diz que o custo deve ficar na faixa das centenas de milhares, e as negociações de reembolso com os sistemas de saúde europeus ainda seguem em curso. Fora da Europa, a oferta continua restrita, e o alcance real do PRIMA vai depender de preço, cobertura e adoção em cada país.