Neste verão, o ChatGPT, da OpenAI, virou companhia de muita gente na hora de planejar uma staycation, aquelas férias perto de casa, sugerindo roteiros e programas na própria região. Mesmo assim, pesquisas da YouGov e estudos do setor citados ao longo deste texto mostram que esse tipo de recomendação ainda precisa passar por conferência.
Para quem quer descansar sem aeroporto, mala despachada ou horas na estrada, ficar pela própria cidade ou pelos arredores já faz tempo que deixou de soar como plano B. Virou uma forma de olhar de novo para o que está perto: cafés, trilhas, feiras, spas e experiências que a rotina costuma engolir sem que a gente perceba.
É aí que essas ferramentas ganham apelo. Elas sugerem roteiros, filtram opções por orçamento e montam agendas inteiras em poucos minutos. Um fim de semana qualquer pode ganhar cara de viagem, com direito até a “joias escondidas” que nem sempre aparecem nos guias mais conhecidos.
Os números dão uma ideia do tamanho desse movimento. Segundo estudos do setor, o mercado global de planejadores de viagem automatizados foi estimado em 4,2 bilhões em 2025, e a projeção é chegar a 18,7 bilhões até 2033.
Num recorte mais amplo, também com base em estudos do setor, a tecnologia generativa aplicada ao turismo foi avaliada em 131,7 bilhões em 2023 e deve passar de 2,9 trilhões em 2033. O público vem acompanhando esse avanço. Cerca de 40% dos viajantes no mundo já usaram esses recursos para planejar viagens em 2025, enquanto mais de 60% disseram estar dispostos a testar, segundo os mesmos levantamentos.
Entre os usos mais comuns estão resumir avaliações, sugerir restaurantes, montar itinerários e encontrar atividades de acordo com o tempo disponível, o clima e o perfil de quem vai sair. No caso das staycations, isso fica ainda mais tentador quando você pede um roteiro de um dia romântico, um domingo barato com crianças ou uma sequência de passeios ao ar livre a menos de uma hora de casa, e recebe de volta ideias rápidas, às vezes até inesperadas.
Millennials e Gen Z continuam puxando essa adoção. Pesquisas do setor indicam que 57% dos Millennials e 53% da Gen Z preferem algum nível de assistência automatizada no planejamento. Ainda assim, confiança total está longe de ser consenso.
Um levantamento da YouGov, feito em 2025, mostrou que o grupo de 18 a 24 anos se sentia menos à vontade com esse tipo de ajuda do que muita gente supunha, enquanto a confiança crescia entre viajantes de 35 anos ou mais. Isso ajuda a explicar um hábito cada vez mais comum: usar o chatbot como ponto de partida, para buscar inspiração, e deixar a decisão final para depois.
O motivo principal segue sendo o mesmo: a confiabilidade das recomendações. Estudos citados no setor indicam que cerca de 90% dos roteiros gerados automaticamente trazem algum tipo de erro, seja preço desatualizado, horário incorreto ou até atrações que simplesmente não existem.
Há casos recentes, também mencionados no setor, que reforçam esse cuidado. Resumos automáticos de hotéis publicados online teriam omitido reclamações sérias de hóspedes. Em outro episódio, relatado na Tasmânia, uma matéria de turismo divulgou fontes termais inexistentes e acabou levando visitantes a um rio gelado.
Especialistas em turismo falam disso sem rodeios: essas ferramentas funcionam melhor como assistente. O bom senso continua entrando na conta. A recomendação segue a mesma, confirmar horários de funcionamento, preços , logística, acessibilidade e segurança diretamente nos sites oficiais e com os próprios estabelecimentos.
Tem ainda um efeito colateral de que se fala menos. Pequenos negócios locais e atrações pouco conhecidas podem aparecer menos do que deveriam, enquanto os mesmos lugares mais citados voltam de novo e de novo. No fim, isso reduz a chance de descobrir cantinhos realmente diferentes e ainda concentra público demais em destinos que já são populares. Para montar a staycation perfeita, o uso mais inteligente dessas ferramentas parece ser pedir ideias amplas, explorar categorias que talvez você não procurasse sozinho e, depois, fazer a curadoria final com pesquisa própria. O resultado pode, sim, revelar experiências que estavam logo ali. Desde que você confirme se elas existem mesmo.